“Literatura e práticas de ação cultural” (Dulcinéia na Casa das Rosas, 18/06)

22 06 2009

Acho importante registrar o sucesso do primeiro debate promovido pelo coletivo Dulcinéia Catadora na Casa das Rosas, no dia 18 de junho. Não falo da quantidade de pessoas (que naquele dia extraordinariamente frio) eram poucas, mas sim dos assuntos que foram debatidos e levantados.

Saí de lá contagiada: com uma necessidade de reformular este blog e falar cada vez mais sobre as editoras independentes e as ações culturais independentes… bem, esse era o tema: Literatura e práticas de ação cultural. Na mesa, Ademir Demarchi, Marcelino Freire e Carlos Pessoa Rosa, como mediador.

O primeiro a falar foi Carlos. Nunca vi melhor explanação sobre a indústria cultural, que vindo de Adorno até hoje, criou um contexo para apresentação do coletivo Dulcinéia Catadora e suas práticas de ação cultural. Carlos, elaborou enunciados muito esclarecedores, entre eles, fiz questão de anotar:  “espectador sem pensamento e sem autonomia”, “preencher o sujeito/ distante do prazer pessoal”, “culto à imagem do autor/ obra vai para um plano secundário”,  “exclusão social e exclusão daqueles que possuem senso crítico (a resistência)”, “exploração do trabalho social”, “o objeto de consumo não é escolhido pelo consumidor e sim pelo mercado”. Depois disso, apresentou o coletivo por tópicos pontuais: práticas de trocas, convivência, compartilhamento, não caracterização do artista ou da forma de arte, prática política não partidária, ações produtivas atuando em rede, problema maior: inclusão social e finaliza afirmando que o coletivo não vislumbra grandes utopias.

Em seguida, Ademir Demarchi leu o seu discurso que apresentava muitas informações qualitativas e quantitativas sobre o mercado editorial, a leitura no Brasil, e a situação do escritor.  Com todos esses dados, afunilou a possibilidade de ser lido deste escritor e contou a experiência da Revista Babel, que possuia um formato impresso e era auto-custeada, para que pudesse ser autoral e distribuída àqueles que os editores consideravam representativos da intelectualidade leitora no país. Ademir cita ainda o exemplo da editora “Demônio Negro” de Vanderley Mendonça, como uma iniciativa editorial que ele acredita.

Para concluir, Marcelino Freire disse, entre outras coisas, que o escritor, que antes escrevia porque não conseguia falar, agora é obrigado a falar para continuar escrevendo. Com seu jeito irreverente, Marcelino apontou a importância dos blogs e das redes digitais para a difusão da literatura e citou inúmeras iniciativas de ação cultural as quais ele está envolvido direta ou indiretamente. Iniciativas estas que, segundo ele estavam  “interferindo na geografia das coisas” (Glauco Matoso) e conseguindo “esfregar pedras na paisagem” (Manoel de Barros). Marcelino ainda levantou a problemática do jornal impresso como um meio que não se reciclou diante das inovações midiáticas advindas da internet e brincou a respeito da literatura “legalizada” das grandes editoras e grandes prêmios, ao falar que se ele se sentisse um jabuti (referência ao prêmio Jabuti que o escritor ganhou no ano passado) ele poderia morrer, porque já estava pronto, já tinha chegado lá.

A platéia pôs mais lenha na fogueira. Eunice Arruda falou sobre a importância das oficinas literárias para a formação do escritor. E outras pessoas questionaram a temática dos blogs por diferentes óticas. Uma perguntou como fazer para filtrar as informações que eram bombardeadas na internet, e outra cutucou a mesa perguntando se a internet e os blogs de assuntos específicos não gerariam informações para “iguais”. Nesta última pergunta, eu não me aguentei na cadeira, queria interfeir e linkar esse assunto de “iguais” com a problemática do jornal levantada por Marcelino e falar sobre a questão do jornal como espaço público que havia discutido com o amigo Pedro Nery aquele dia mesmo.

Depois, a prosa ainda se desenrolou sobre a questão digital X artesanal, qual a melhor forma de combater as mazelas da indústria cultural. Ademir disse que preferia a maneira como Vanderley Mendonça procedia na “Demônio Negro”, disse que não tinha blog, mas que andava pensando em ter um site para Dulcinéia Catadora e sugeriu que o coletivo disponibilizasse os pdfs dos livros na internet. Marcelino defendeu que o escritor também fosse um missionário e atuasse em todos os âmbitos possíveis para divulgar o livro e a leitura. Disse que o escritor iniciante precisa saber quem está escrevendo em seu tempo e que o blog é uma boa forma de se aproximar não só da escritura como da figura do escritor em si, que com isso, fica cada vez mais dessacralizado do ideal de “autor”.

Cá-comigo, concordei.  Mas, de quebra, fiquei pensando naquilo que Gustavo López, da editora VOX (Argentina) havia me dito em meio a exposição sobre a Nova Figuração Argentina, 1961, no Sesi. Gustavo tem uma maneira muito particular de pensar o livro que,  diga-se de passagem, concordo plenamente. No seu trabalho editorial ele considera e incorpora todas as tecnologias (realizando a revista VOX digital, que já tem 22 números e mais de 5000 inscritos para recebê-la gratuitamente), mas pensa que  a função do livro impresso vai se modificar, para além de um compêndio informativo ou literário, o livro passará a ser um suporte para trocas físicas com o leitor, e portanto, o espaço de hibridização entre o livro e as artes visuais será cada vez maior.

Ao final, foi exibido um vídeo com um depoimento do escritor André Carneiro sobre o lançamento do seu livro que foi nesta mesma noite. Vou pedir pra Lúcia Rosa uma cópia deste vídeo e depois posto aqui.

Essa semana tem mais debates na Casa das Rosas. O tema desta quinta-feira, dia 25/06 é Arte e Práticas de Ação Cultural.

19 horas
Mesa de discussão: Arte e práticas de ação cultural, com Cristina Freire, professora e curadora do MAC-USP; Monica Nador, artista plástica fundadora do Jamac e Lúcia Rosa, representando o coletivo Dulcinéia Catadora.

20h30
Lançamentos dos livros da série DUO

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Ações

Informação

2 responses

24 06 2009
lúcia rosa

Lívia:

O Carlos colocou André Carneiro no youtube:

9 07 2009
Guilherme Kulkamp

Sei que sou suspeito de dizer, mas gostaria de chamar a atenção para a qualidade ou, mais assertivamente dito, o estilo do texto que você agora possui.
Você cresceu, e em crescer ficou não apenas uma mulher linda, mas também uma linda escritora.

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